sexta-feira, 2 de março de 2012


O mundo de hoje todo apita

 

 


 
Roberto Martins
No princípio desta semana fui a uma boa loja de hortifruti aqui na área metropolitana de Recife fazer compras para minha casa. Fazia já algum tempo que não ia lá. Com uns cinco minutos iniciando a escolher as frutas ,legumes e verduras ,começo a ouvir de dentro da loja uma cantoria que já me exasperava. Meus ouvidos trataram de conduzir meus olhos e deparo-me com um pequeno alto-falante preso lá no teto deste galpão do estabelecimento. Notei logo em seguida que eram vários estes alto-falantes e que lançavam uma coisa parecida e tida provavelmente por muitas pessoas como música. Era a voz irritante de uma gasguita e eu não entendia lá muito bem o que supostamente deveria passar por letra de uma também suposta música. Não fosse a minha secretária que me acompanhava nas compras , teria desistido e interrompido esta minha incursão de uma atividade rotineira , e que deveria ser um ato simples e até prazeroso. O som que passava por música – era uma música na realidade , porque a sociedade assim já havia passado a considerá-la como tal , menos eu , pobre minoria mais exigente e por demais civilizado – me limitava e até quase me impedia de escolher os itens saborosos que procurava pegar nas prateleiras. Tirava a minha concentração e me incomodava o chamado "gosto" da tal assim chamada "música". Minha secretária , indagada por mim informou- me que era uma tal de Cláudia Leite e que este referido ente foi presença frequente no carnaval e que continuava a ser tocada no que poderíamos chamar de semana pós-carnavalesca. Eu , que fiquei trancado durante o carnaval , saio de casa dois dias depois da Quarta-Feira de Cinzas ( alguém ainda sabe que existe e o que significa ? duvido muito ) e topo com uma dessas. Apressei o final das compras e voltei ao que posso até certo ponto chamar de gostoso e civilizado mundo sem barulhos ( zona de conforto) , o que atualmente significa dentro de minha casa, que não tem as paredes forradas de cortiça como eram as paredes do apartamento de Marcel Proust em Paris.
Não foi a primeira vez que me vi envolvido em uma situação desconfortável como esta. E nem é experiência recente, Há uns dez anos entrei em padaria no bairro do Espinheiro e lá passei por uma aporrinhação semelhante. Por que estes estabelecimentos têm de colocar som em seus ambientes ? O cara lá vende pão ; o outro lá vende fruta-pão. Pra que então música , a chamada "música-ambiente" pra torrar os nossos ouvidos? Não me espanta que em casa funerária também haja som. Por que "oferecem" ( impõem , é o verbo correto) à sociedade este 'valor agregado' no comércio e também no setor de prestação de serviços – consultórios médicos , inclusive – e a sociedade não só tolera , mas por sua vez quando atendida passa até a sentir falta e exigir som e sons ? E muitas vezes não são pseudo-relaxantes 'mantras' , tipo new age. São músicas que estão 'no gosto do povo'. Em nome da "cultura local" na semana pré-carnavalesca entrei em uma livraria – lugar assim meio sagrado para mim - e tenho de ouvir frevo. Música que até gosto , mas dentro de uma livraria queremos é silêncio. Isto dos sons faz parte do que o sociólogo alemão da Universidade de Leipzig , o Christoph Türcke em recente livro denominado de Sociedade Excitada – filosofia da sensação. E as tecnologias de hoje todas "apitam" e nem dentro de casa a gente pode ter silêncio: o micro-ondas apita nervoso; os diversos telefones apitam; o elevador fala ; minha impressora ,imitando a Iris Letiere ( aquela voz que nos chamava para os vôos nos aeroportos de década atrás) fala, avisando mil e uma conclusões e mil inícios e falta de papel; o alarme dos carros apitam , além de suas infernais buzinas;a campainha das portas apitam; a TV de plasma faz um sonzinho quando é ligada;carros de som adentram pela minha casa com pastores gritando por Jesus etc. Para completar , no meu caso, tive o azar de me tornarem vizinho de uma ONG que cuida de cães abandonados , ONG que nem licença tem de funcionar naquele local. E pipocam fogos de vez em quando nas adjacências , sabe-se lá a razão do foguetório. E haja excitação , que geralmente é confundida com alegria. Não são a mesma percepção;sensação é uma coisa; sentimento é outra coisa.  

 

2 comentários:

Anônimo disse...

Muito bem colocado, a liberdade em sociedade não é o direito de fazer qualquer coisa sem respeitar o próximo.
Porque será que tudo isto é considerado normal? Porque será que sou obrigado a conviver com a má educação de alguns? Porque será que para o brasileiro é tão difícil defender os seus direitos?
Bom dia bob!
ass:shy Martins

Anônimo disse...

Martins

este seu texto é MARAVILHOSO !

É isso mesm: O mundo todo apita e tb está ficando pirado.

Assussena